"Devemos encarar com tolerância toda loucura, fracasso e vício dos outros, sabendo que encaramos apenas nossas próprias loucuras, fracassos e vícios"



domingo, 13 de junho de 2010

Uma das memória de Boston:

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Na volta do mergulho no atlântico norte


Peguei o Train da Revere Beach para o Governement Center: a viagem mais triste que já tive (apesar de terem sido não mais que 15 minutos). Talvez pelo fato de estar me sentindo como um daqueles soldados que foi para guerra e quando voltou para casa a mulher estava com outro por ter achado que nunca retornaria vivo. No meu caso, não retornaria viva a personalidade que a agradava, aquela de macho alfa quando em minha pequena província. Esta foi extinta quando deixei de ser o bonitão para ser apenas o cucaracha entre os colegas de Boston .

Mal ou bem comparando, fica a critério do leitor, sinto-me como um elefante na Amazônia, perdi toda a preponderância que tinha em meu habitat natural e passei a ser motivo de piada para os macacos, onças, tamanduás, cobras e vários animais muito mais excêntricos do que eu, mas que se consideram normais por estarem adaptados a esse ambiente fechado, em que se vive debaixo da postas das árvores, só tendo uma ideia esboçada do céu ou de um campo aberto. Quando tento explicar para eles a beleza do céu, o incomodo de viver exprimido ou a falta de uma visão geral, acham que eu sou louco. Eu os compreendo, eles não conseguiriam se adaptar à claridade do campo aberto, ao difícil acesso aos alimentos, a falta de proteção do sol, resumindo: à vida real dentro da minha concepção de elefante.

Voltemos a viagem, pois já vou perdendo o fio da meada ou a linha do trem… Sim, aquela que foi triste. Mas por quê, afinal, foi triste? Não, não foi somente pelo o inevitável ato de pensar na amada, recente falecida amante e repente, de um novo amo, servente. Foi por só ter pessoas tristes ou no mínimo entediadas e com aquela cara de metrô! Numa américa de alicerces estrangeiros, vi nesse metrô meia dúzia de latinos, três nipônicas, uma mãe com duas filhas entre 15 e 17 anos que me pareceram ser indianas e uns tantos afro-descendentes. Ninguém arriscava um sorriso naquele ambiente onde a depressão era a Lei, a não ser ele, que não chegou a fazer meu dia, mas ao menos o coloriu. Usava um boné laranja dos yankees, enorme para o tamanho da sua sensível cabecinha e um protótipo de roupa de gente grande. Era uma garotinho negro que gargalhava feliz da vida, constrangendo todos aqueles infelizes, a não ser a mãe que se deliciava acompanhando o garoto. Senti inveja a como muito tempo não sentia, ele ria de graça, provavelmente porque ainda não tinha sido afetado por todas as convenções, invenções, informações e canhões criados pela doente mente humana. Imune aos "ões" e propício ao "hahaha", somos todos por essência, mas sofremos perturbações no caminho. Como havia dito, a criança tinha colorido o meu dia e isso não aliviou a tristeza daquele intervalo entre as duas estações, muito pelo contrário, pois o colorido inicialmente num tom laranja do seu boné comicamente desproporcional foi se transformando em tons de blues e roxo escuro. Isso porque notei o quão tinha sido afetado pelos "ões" humanos, aliás, o quão todos ali também tinham sido. Era como se tivessem, tivéssemos tomado uma overdose de um ácido e entrado num estado embasbacado vegetal deprimido.

No meu caso, a invenção que mais me fudeu foi o amor (Por quê a gente não pode só fuder, seguindo o extinto de procriação como qualquer outra espécie?) ou a porra do computador com internet, por onde veio a informação que ela estava com outro. Além disso, não estaria me sentindo tão mal se não fosse pela convenção de traição, de ser passado para trás, de infidelidade ou de qualquer coisa do tipo. Quero que se foda as convenções(todos os outros "ões" com ela também), pois não consigo crer que ela fora capaz de cometer tais convencionados males.

Enfim, torço para que a tristeza profunda seja apenas a viagem, o intermediário entre as estações e não o meu destino.

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