"Devemos encarar com tolerância toda loucura, fracasso e vício dos outros, sabendo que encaramos apenas nossas próprias loucuras, fracassos e vícios"



domingo, 22 de abril de 2012

O tempo não dá trégua

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A coxinha está lá
Esperando na vitrine da padaria
A cada segundo que passa
Ela fica menos fresca
Menos quentinha
E pedaços antes crocantes
Vão ficando massudos e gosmentos

Quando finalmente é liberta de sua prisão
Pelo julgamento póstumo
De um terceiro que só considera as aparências
É uma maçaroca de gordura, gelada e intragável

Já morta em sua essência
Só tendo a superfície dourada como testemunho de sua
Outrora, jovem gostosura
É coberta de ketchup cor de sangue e mascada com raiva
Raiva de quem não tem mais o que comer
A não ser ela, uma velha coxinha

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pedra Preciosa


A canção vem bem debaixo dos meus pés
Da testemunha dos cruzeiros, cruzados e réis
Dos sofredores transeuntes, sempre todos em pés
Presente na praia, mas presente na raia
Se em copa valoriza todas de mini saia
Faz suar os do batente antes que a noite caia

Ô pedrinha portuguesa que me viu crescer
De grotesca beleza e ancião saber
Vou pisar no preto, pisar no branco
Pisar você

Ó que tristeza, pedrinha discreta
Podem te concretar
Assim a poesia concreta se veta
Só concreto sobra
E todo mosaico vira só uma reta
Resta o linear
De uma história curvada


A canção vem bem debaixo dos meus pés
Da guimba dos malandros, também dos manés
De submissos de terno a carnavais de infiéis
A inspiradora de origem lusitana
Também pegou bem na terra da cana
Pros mendigos, a cama
Pros turistas, Copacabana

Ô pedrinha portuguesa que me viu crescer
De grotesca beleza e ancião saber
Vou pisar no preto, pisar no branco
Pisar você